20 de jul de 2011

ALGUÉM AÍ DISSE QUE É FÁCIL? - UM INTERESSANTE TEXTO DE UM PROFESSOR

Se fosse fácil, todo mundo era.
Se fosse muito, todo mundo tinha.
Se fosse raso, ninguém se afogava.
Se fosse perto, todo mundo vinha.
Se fosse graça, todo mundo ria.
Se fosse frio, ninguém se queimava.
Se fosse claro, todo mundo via.
Se fosse limpo, ninguém se sujava.
Se fosse farto, todos satisfeitos.
Se fosse largo, tudo acomodava.
Se fosse hoje, todo mundo ontem.
Se fosse tudo, nada aqui restava.
Filhos do Câncer (Zé Ramalho e Fagner) 

Parece que, hoje, a gente vive rodeado de muito mais-infinitamente-mais bobos iludidos... Será que tratamos hoje com uma geração de iludidos somada a alguns iludidos de gerações passadas que engrossam o caldo? Infelizmente, parece que sim...
Não falo daqueles que têm um sonho real e produtivo de vida, de construir alguma coisa, daqueles sonhos bons que fazem a gente viver e crescer e ser o que é. Falo daqueles que são os bobos das tontas ilusões do dia-a-dia, como a Telesena, a Megasena, a tonta cena de se iludir com uma carreira meteórica de ídolo de TV, de cantor de sertanejo universitário-que-fugiu-da-escola-primária ou de jogador de futebol que encerra sua carreira milionária em um motel vagabundo de periferia com meia-meia-dúzia de travestis ou vendo seus apartamentos de cobertura serem leiloados pra pagar as pensões atrasadas dos pobres filhos das marias-chuteiras que ficaram pelo caminho, isso se não for preso por causa de uma chacina de trânsito depois de uma bebedeira em uma noitada qualquer.
Falo daqueles pobres iludidos com o pastor que os vai deixar ricos em troca de um dízimo, do segundo dízimo e do terceiro dízimo, que formam o “trízimo”, que não tem nada a ver com a oferta e com a doação para projetos específicos, que é “em separado”. Falo da ilusão com um tal “jesus-que-nos-torna-milionários” se tivermos fé. Esse jesus-dos-milionários – sinto muito dizer! - não existe, porque o Jesus de verdade era pobre e dizia que é perigoso acumular muitas riquezas aqui na Terra, que era melhor acumulá-las lá no Céu com boas obras de fé... Por isso, sou obrigado a concluir que, se esse tal jesus-dos-milionários passou a existir hoje, ou é aquele de antigamente que mudou de ideia – e um deus que fica mudando de ideia não merece crédito – ou é outro que quer ferrar a gente... Não acredito em nenhuma das duas hipóteses...
Falo de quem, já na juventude, vive da ilusão do dinheiro fácil, da fama fácil, da vida fácil, da felicidade fácil, da beleza fácil... Como se qualquer dessas facilidades existisse, e como se, existindo, elas não nos cobrassem o preço da nossa própria vida... Daquele que, quer acabar com a barriguinha, mas não quer mudar seus hábitos e, por isso, prefere o bisturi e, muitas vezes, a morte. Daquele que quer ficar sarado e musculoso, mas não quer a chatice do exercício físico por anos a fio, e assim, prefere as facilidades dos anabolizantes descarados e dos anabolizantes disfarçados de suplemento ingênuo e saudável, pagando, pela pressa, com a saúde e, às vezes, com a vida.
Falo da maioria de bobos que existem neste país e que acham que tudo se resolve com um milagre, que existe um deus brasileiro, que torce pro nosso time e que vai fazer dinheiro cair do Céu pra garantir o churrasquinho de calabresa e a cervejinha “sagradas” de cada semana. Pois tenho uma triste notícia pra esses bobos: esse deus brasileiro, que torce pro nosso time e que garante o churrasquinho com cerveja não existe também não... O que existe é uma coisa chamada vida e uma outra coisa chamada você. E a lei que estabelece como essas coisas funcionam é muito simples: plante se quiser colher.
Não estou aqui fazendo uma abordagem moral do problema. Não condeno os seguidores de Diógenes, que amam a preguiça e preferem uma mendicância assumida e feliz por toda a vida a um pouco de labor. Se a escolha dos seguidores de Diógenes é essa, que seja, desde que não atormentem ninguém. Falo, porém, dos pretensiosos, dos que querem ser, ter, conquistar, mas não querem passar pelo percurso de construção: querem o milagre do atalho para chegar logo ao final glorioso... Difícil, ein?!
Eu sou só um sujeito relativamente bem-sucedido como professor e escritor de livros científicos (que, no Brasil, aliás, vendem muito-muito pouco perto as obras do grupo das –aria: putaria, bruxaria e porcaria em geral). Nada de milhões na conta: só consegui um bom emprego estável e uma carreira honesta, uma vida feliz e nada de muito mais... Mas, ultimamente, tenho respondido mais do que o normal a boba pergunta “como você chegou onde está?”. A pergunta me estranha, porque sou muito pouco e não sei como isso chega a chamar a atenção de alguém. Mas, a resposta, sempre óbvia, me é cada vez mais irritante: “Trabalhando, pra ca... piiii...!”. O que mais seria? Meus títulos acadêmicos não foram ganhos de presente e eu não tinha dinheiro pra comprá-los (e nem que tivesse o faria...), meus livros não nasceram em árvores, minhas palestras não foram plagiadas da internet, as milhares de aulas que ministrei não tiveram geração espontânea, as noites que passei estudando, escrevendo, queimando a cabeça na beira da mesa de estudo não foram de noitadas em baladas e bailes funk, o investimento que fiz em meu intelecto não contemplou drogas e orgias, as coisas que consegui comprar foram com muita economia, a família que tenho é cultivada carinhosamente a cada segundo da vida. É assim que se faz, sabe? A gente trabalha duro, estuda muito, se esforça, economiza, aproveita os anos fortes da vida pra ralar muuuuito, e constrói alguma coisa quando pode pra poder usufruir de algo nos dias mais cansados que virão pela frente. Não tem mistério não: tem que ralar muito, tem que plantar muito se quiser colher pelo menos um pouco depois.
Se alguém aí disse que a vida é fácil, é um baita 171! Não é fácil não! Se fosse fácil, que graça teria? Se fosse só ir estendendo a mão e colhendo os frutos não plantados ou enfiando na boca as delícias não merecidas, que injustiça seria isso tudo?! Que razão haveria pra se viver? Como pode alguém ter a presunção de colher aquilo que não plantou, de ser aquilo que não se preparou pra ser, de estender a mão e tomar posse daquilo em que não tem mérito, de posar de estrela em um céu que não é seu? Mas, tem um monte de iludidos por aí que pensa que a vida pode ser assim! Ah! Como tem!...
Esses tais jogam os anos fortes da juventude fora, zoando... Abandonam os estudos, jogam no lixo de sua arrogância as oportunidades que recebem, acabam com a saúde prematuramente com álcool, fumo e drogas ilícitas. Gastam a juventude “transando” feito animais, sem respeito a si mesmos e aos outros. São acometidos de doenças que acabam com sua saúde geral e deixam rastros pelo resto da vida, isso quando não pinta uma AIDS pelo caminho. Preferem a diversão ao estudo, a noitada a fazer o trabalho da escola, o baile e a orgia a algumas horas de preparação para a vida futura. E isso – pasme-se! – muitas vezes com o apoio e o incentivo dos pais!!! Pais que fazem isso são criminosos! Quando questionados sobre a estupidez de seu comportamento, esses iludidos ainda dizem que “a vida é pra curtir” e criticam acidamente quem estuda, quem é correto em suas atitudes, quem é mais comedido, mais controlado, quem se recusa a beber até cair ou dar vexame no baile feito um doente mental, quem resolve poupar um pouco de grana, quem não quer tomar parte na orgia ou na roda de droga. E, por incrível que pareça, esses verdadeiros “manés” se acham espertos!!!! Essa é a parte mais intrigante da coisa: ELES SE ACHAM ESPERTOS!!!! Como pode?!
Mas, tenho visto que isso tem um preço doloroso pra eles. O resultado dessa escolha é bem conhecido: filhos bastardos que são entregues pra criação pelos avós, estudo e profissionalização medíocres que não levam a lugar nenhum, subempregos que, depois, serão aceitos como forma desesperada de pura sobrevivência ou pra garantir a possibilidade de comprar meia dúzia de pedras de crack ou de cigarros de maconha, submissão humilhante a quem os sustenta e daí pra pior. Pois é... esses iludidos que se achavam tão espertos, tão inteligentes, os senhores da vida fácil, acabam suas vidas assim: colhendo os frutos de sua mediocridade, a mediocridade que eles mesmos plantaram enquanto esperavam o milagre que os tornaria ricos, famosos, lindos, inteligentes, preparados. Muitas vezes, segue-se até a destruição do patrimônio da família, o desperdício do esforço dos pais, a derrocada de tudo o que a família construiu em anos de esforço e labor.
Seria até capaz de sugerir um desafio aqui: me dê um exemplo real diferente disso e lhe dou um milhão de exemplos iguais a isso! Um pra um milhão: é uma aposta perigosa, não acham? A vida real é verdadeiramente simples assim: difícil de construir, mas fácil de destruir. Difícil de chegar lá, mas fácil de não chegar a lugar algum, de virar apenas mais um na massa tonta do “grupão”, mais um nesse monte-de-nada sem sentido que nos rodeia, enchendo o saco dos outros até morrer-e-já-foi-tarde...
Então o sujeito olha pra mim e pergunta: “Como foi? Qual é a dica?” Sim, ele quer uma “dica”, um “atalho”! Olha, não tem “dica”: trabalhe, plante, rale! E então – confesso - dá uma pena do sujeito... E eu lembro do Zé Ramalho e da letra da música que coloquei lá no início... E penso: quem enfiou ilusões tão tolas na cabeça desse cara?
O mais triste é que, falando isso, principalmente assim de forma escancarada, a gente ainda passa por quadrado... Muito bem... Quadrado, bem quadrado, com todos os ângulos retos e os lados iguais. Pode ser, mas nunca uma coisa disforme escorrendo pela vida, pelos cantos, tentando os atalhos das coisas fáceis, atalhos que acabam sempre na boca do lobo mau. Já escrevi isso aqui: o lobo mau mora no atalho! Então, é bom ficar esperto! O caminho mais longo é o melhor, é o que permite a correta preparação, o que leva ao abrigo seguro, o que permite colher, depois, as melhores coisas da vida. O atalho é sempre perigoso...
“A vida é pra curtir”, dizem. Mas, não é a gente que curte a vida: na verdade, é a vida que curte a gente, impiedosamente, como se curte o couro ou o ouro... “A vida é pra curtir a gente”! O couro apanha e fica de molho em substâncias que outros materiais não suportariam. Entra fedendo carniça, sai macio e cheiroso. O ouro passa pelo fogo até que só reste ele mesmo, ouro puro, sua mais fina essência. O couro e o ouro são nobres em todo o mundo, em qualquer lugar: mas só depois da purificação, de apanhar, de sofrer, de passar pelo fogo. É assim que a vida nos curte: purificando, limpando, amadurecendo, exigindo a construção de um caráter que nos torne dignos de colher algo e que, também, nos ensine o que fazer com o que colhemos. Porque não basta ter: é preciso saber o que fazer com o que se tem. Simples como um dois-mais-dois: sofre-se nos anos fortes, usufrui-se nos anos fracos. E, olha que, mesmo assim, não há garantia de sucesso pra todos! Não é um presságio, um destino marcado: é sempre uma aposta. Mas, vale notar que algumas apostas já começam perdidas. Apenas algumas têm alguma chance de vitória. Então, por que não apostar naquilo que pode dar certo ao invés de apostar naquilo que todo mundo sabe que dará errado?

Se todos enxergassem isso, se todos pensassem nisso, se todos fizessem isso, quanto sofrimento não seria poupado, quantas lágrimas de pais e de filhos, quanta dor...

Doutor em Semântica, é professor da Universidade Federal de Alfenas. Come, bebe e respira "Educação" - sendo educador - há 27 anos.

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