4 de set de 2015

PORTUGUÊS DESERTA DA FORÇA AÉREA PORTUGUESA E VAI LUTAR CONTRA O ESTADO ISLÂMICO


Grande entrevista: "Preferia morrer a não fazer nada"


Sábado/Nuno Tiago Pinto - No fim do passado mês de Janeiro, quando o autodenominado Estado Islâmico (EI) foi expulso da cidade síria de Kobane, junto à fronteira com a Turquia, Mário Nunes, 21 anos, tomou a decisão que ponderava há meses: ia desertar da Força Aérea (FA), onde tinha sido incorporado a 2 de Julho de 2012 e juntar-se à luta contra o maior grupo terrorista da História. 

Conhecia bem as consequências: em Portugal teria, no mínimo, um processo disciplinar na FA; no Curdistão iria arriscar a vida em combate e se fosse feito prisioneiro teria um destino terrível. Ainda assim, não hesitou. Seguindo as instruções que lhe foram transmitidas pela Internet, comprou um bilhete de avião só de ida para Sulaymaniyah, no Curdistão iraquiano. Inserido num grupo de voluntários, atravessou a fronteira com a Síria onde, a 10 de Fevereiro, concretizou o seu objectivo: aderir às Unidades de Protecção Popular (Yekineyen Parastina Gel, ou YPG, em curdo). Foi o primeiro português a fazê-lo. 

Nos quatro meses seguintes esteve sempre na frente de combate. Fosse em ofensivas ou na defesa das localidades conquistadas. Na maioria das vezes a poucas centenas de metros de atiradores furtivos do EI. Por várias vezes sentiu as balas a zumbirem-lhe aos ouvidos. Nas pausas entre os combates faziam de tudo para passar o tempo. 

No início de Junho deixou a Síria. Ao longo das últimas duas semanas explicou à SÁBADO, por escrito, os motivos que o levaram a desertar e partir para a Síria. Contou o que viu e como viveu nos quatro meses que passou na linha da frente contra os jihadistas e desmente várias informações publicadas na comunicação social – como o significado da tatuagem em árabe que tem no braço esquerdo. 

Porque decidiu ir para a Síria e voluntariar-se para combater o EI? 
Houve mais do que uma razão. Não consigo negar que a guerra me fascina. Talvez seja por influência do meu pai e dos meus tios, que estão quase todos na tropa ou nas forças de segurança. Sempre me interessei por história e esta foi uma oportunidade de fazer parte dela em vez de a ler num livro. Também senti que podia fazer a minha parte sendo o primeiro português a combater na Síria e fazer com que outros portugueses se preocupassem ao verem um deles a combater pelo lado certo e não pelo EI.


Mas o que o fez decidir arriscar a vida? 

A hipótese de fazer aquilo que sempre quis. Não me vejo como um mercenário porque o dinheiro não é a minha motivação. Estou disposto a pegar numa arma para contribuir para um mundo melhor. Todas as pessoas escolhem como podem ajudar: com dinheiro, com voluntariado, a curar pessoas. Mas há aqueles que dão o sangue e se batem frente a frente com pessoas más. 

Pegar numa arma para ajudar o mundo a ser um lugar melhor não é um bocado contraditório? 
Não. Um processo de paz e sanções não teriam impedido os nazis de conquistar a Europa. Alguém tem de passar das palavras aos actos. 

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