9 de dez de 2015

A HISTÓRIA DA COCAL, A CACHAÇA MAIS COBIÇADA EM TARAUACÁ - TRIBUTO AO PASSADO


Alguns informes prévios: O início do texto trata sobre a história da cana de açúcar e como ela foi introduzida no Brasil. Vale a pena ler tudo.

Essa garrafa encontra-se na casa do nosso amigo Altevir Aguiar, marido da Badra. A ele meus agradecimentos por deixar eu fotografá-la.

Atualização em 29/06/2016 o Sr. Altervir muito gentilmente me presenteou com essa garrafa.

Para salvar as fotos, clique na mesma para ampliá-las.


Engenho em Igarapé-Mirí
Um Relato Sobre Engenho em Igarapé-Miri

Odifax Quaresma Pureza[1]/ Blog Igarapé - Miri - Texto escrito a partir das informações fornecidas pelo Sr. Agenor Martins[2], em entrevista gravada no dia 23 de fevereiro e complementada no dia 08 de maio de 2009, em sua residência, na sede do município, com o apoio do Sr. João Portugal Pantoja.


Para Iniciar

Este texto pretende construir, a partir da memória de um antigo dono de engenho, um panorama do processo de produção da cachaça, no interior do Município de Igarapé-Miri, onde esta atividade, importante para a economia do município na época, tem sua origem ainda no século XVIII, perdurando até a segunda metade do século passado.

De Nova Guiné à Igarapé-Miri

A cana-de-açúcar tem sua origem[3] na Nova Guiné. Introduzida seu cultivo pelos árabes no Egito, no século X, é creditado a este povo o processo de clarificação do caldo da cana e produção de açúcar de alta qualidade para a época.

Com a chegada dos europeus, coube a Cristovão Colombo a introdução do plantio da cana na América, em 1493, na hoje República Dominicana. No Brasil sua chegada é creditada a Martim Afonso de Souza, que teria trazida as primeiras mudas em 1532, iniciando seu cultivo na Capitania de São Vicente, onde constrói o primeiro engenho de açúcar. No entanto, é no Nordeste, principalmente nas Capitanias de Pernambuco e da Bahia, que os engenhos de açúcar se multiplicaram.

É a partir de Pernambuco, através de pernambucanos, que a cana é introduzida no Estado Pará, tendo chegado a Igarapé-Miri, através de um cidadão conhecido apenas pela alcunha de Pernambuco, que a plantou, inicialmente, no Rio Anapú, expandindo-se, a partir daí, para outras regiões do Município.

Data de 1712 a instalação de um pequeno engenho movido a água, o qual foi chamado de Santa Cruz, considerado o primeiro do município, onde fabricava-se mel, rapadura, açúcar batido e, posteriormente, aguardente. Este teria sido a origem de uma série de engenhos que viriam a ser instalados no município, que podem ter chegados, no auge de seu funcionamento, a um número próximo de cem. Estes engenhos, produtores de cachaça, foram responsáveis por um período de grande desenvolvimento econômico de Igarapé-Miri, tendo a Coletoria de Rendas Federais local, nos anos de 1938 e 1939, alcançada a maior renda do Norte do Brasil, com os impostos arrecadados, principalmente, em função da produção e venda deste produto.

O Engenho São Jorge

É neste contexto que surge o engenho São Jorge, em meados da década de 50, do século passado, localizado as margens do Rio Meruú, de Martins e Filhos, e administrado por Angenor Martins. A origem deste engenho é o engenho São José, localizado no Furo Seco, de Raimundo Martins de Lima, o Tito Martins. Este engenho havia sido adquirido de José Roberto dos Santos, o Zé Araújo, proprietário do engenho São Paulo, localizado no Rio Meruú Açu. Com a compra de um engenho diretamente de Recife, Pernambuco, para o engenho São José, o antigo é montado, então, no engenho São Jorge. Depois de algum tempo foi adquirido, para o São Jorge, um engenho de Humaitá, no Amazonas.

A Obtenção da Matéria Prima

A Matéria prima dos engenhos era a cana-de-açúcar, a partir da qual era produzida a cachaça ou aguardente. Para obter este produto o dono de engenho tinha que financiar o agricultor. O financiamento era feito em dinheiro e o contrato era verbal, ou seja, segundo o nosso informante, não se tinha nenhuma garantia quanto ao cumprimento do acordo firmado, podia acontecer de, estando crescida a cana, a mesma fosse vendida para outro engenho. Neste caso, na tentativa de evitar malogros, o negócio era feito com pessoas de extrema confiança.

A plantação podia ocorrer tanto na terra do agricultor, como na do dono do engenho, ou na de terceiros. Segundo Agenor Martins, terra para plantar cana, nesse tempo, não era problema, pois as pessoas não tinham outro destino para ela. O negócio era fechado na base do terço. Este processo se dava da seguinte forma: Um terço da produção da cana era de quem havia realizado a plantação, um terço do dono da terra e, o terço restante do dono do engenho que tinha financiado o plantio. A partilha acabava se dando, no entanto, em relação ao produto final, ou seja, em relação à cachaça produzida.

Como, geralmente, nem o agricultor nem o dono do terreno tinham para quem vender a cachaça, eles acabavam recebendo em dinheiro as partes que lhes cabiam por direito, ou seja, o dono do engenho comprava a parte dos outros dois sócios. Do valor total destinado ao produtor era descontado o valor recebido a título de financiamento da produção, este recebia então, em dinheiro, o saldo a que tinha direito, apos concluído o negócio.

O Regime de Trabalhado No Engenho

Os funcionários do engenho residiam nas imediações do próprio engenho. Em uma área nas adjacências da sede era construída, pelo proprietário do engenho, uma vila de casas para serem ocupadas pelas famílias dos funcionários da indústria de cachaça. Quando foi possível foi instalado, inclusive, luz elétrica nas casas, geradas por pequenos geradores conjugados. Além de um bico de lâmpada possibilitava, aos moradores, a utilização do rádio, que era o principal meio de comunicação da época, haja vista que ainda não se tinha acesso à televisão no local. Deste modo, para se ter o trabalhador, segundo Agenor Martins, era necessário lhe oferecer condições adequadas de moradia. 

Os funcionários do engenho trabalhavam no regime de diárias. O seu pagamento era feito a vista e em dinheiro corrente. No engenho tinha um estabelecimento que comerciava os gêneros de primeira necessidade. No entanto, segundo nosso informante, os trabalhadores tinham livre arbítrio sobre onde realizar a aquisição dos produtos dos quais eles necessitavam.

Por outro lado, se ocorresse um problema de doença do trabalhador ou de alguém de sua família, geralmente este não tinha reservas em dinheiro de que pudesse dispor para emergências desta natureza. Neste caso, cabia ao dono do engenho prouver esta necessidade. Este providenciava transporte para o doente, o pagamento da consulta, a compra do remédio e, se precisava de uma alimentação diferenciada, providenciava a mesma, uma vez que, o dono do engenho tinha interesse em recuperar a saúde deste trabalhador ou de um ente seu, pois o mesmo faria falta na linha de produção.

A Linha de Produção

A linha de produção em um engenho começava com o corte da cana no roçado, uma vez que, o agricultor cuidava do plantio e entregava o roçado ao dono do engenho no ponto da colheita.

Deste modo, na ponta da produção estava o cortador da cana, que também arrumava as mesmas em feixe. Em seguida entrava em ação o passador de cana. Este tinha a função de transportar os feixes de cana, no ombro, do roçado até o batelão, que era o meio de transporte usado para levar a cana, pelos rios e igarapés, até o engenho.

Com o batelão carregado, esperava-se pela maré cheia, para que o batelão pudesse ser levado até o seu destino. Inicialmente, o batelão era levado a remo. O passador também era o gingador que, usando o faia, que era uma espécie de remo alongado, gingava na popa do batelão, para colocá-lo em movimento. No entanto, este sistema era pouco produtivo, principalmente se o roçado situava-se longe do engenho. Neste caso, passou-se a usar um barco a motor para realizar o reboque destes batelões.

Ao chegar ao engenho, a cana era jogada, pela mesma pessoa que realizara o seu transporte, no picadeiro, que era o espaço reservado para receber esta cana. Quando ocorria a moagem, entrava em ação o carregador de cana. Este tinha a incumbência de carregar, também no ombro, a cana do picadeiro para o banco de cana, que ira abastecer o moinho. O banco de cana tinha que estar sempre abastecido durante a moagem, senão atrasaria este processo, caso faltasse cana no banco.

Uma função importante era o de metedor de cana no moinho. Este funcionário tinha a função de fornecer cana para o moinho durante a moagem. Esta era uma função importante porque exigia deste muita atenção. Se por um lado não podia faltar cana no moinho, senão diminuía a produção, por outro não se podia meter cana em excesso, senão o moinho “engasgava” diminuindo, também, a produção do dia.

Outro problema eram os possíveis acidentes com estes trabalhadores. Ao meter a cana, suas mãos ficavam bem próximas da moenda do moinho. Se ocorresse qualquer descuido, a moenda poderia pegar as mãos e até os braços deste trabalhador, deixando-o mutilado. Nosso informante não lembra nenhum acontecimento desta natureza em seu engenho.

Trabalhando em sintonia com o metedor de cana tinha o virador de bagaço. A cana, ao passar pelo moinho, tinha o seu sumo, ou garapa, extraída, restando, então o bagaço da cana. Para garantir a extração de toda a garapa, o bagaço tornava a passar pelo moinho, daí a função do virador de bagaço.

Depois de extraída toda a garapa o que sobra da cana é o bagaço. Entra em cena, então, o carregador de bagaço. Este é responsável por transportar este resíduo para a bagaceira. A bagaceira era um grande galpão coberto de palha, onde o bagaço ficava armazenado, por cerca de 10 dias, para secar. Depois de seco este rejeito servia de combustível para a caldeira.

Segundo Agenor Martins, algumas destas caldeiras não aceitavam o bagaço como combustível, neste caso ele era descartado nos rios ou em terra seca. Quando utilizado como combustível na caldeira, tornava os custos de produção da cachaça mais barato, pois diminuía a quantidade de lenha necessária para o funcionamento da referida caldeira.

A energia para o funcionamento tanto do moinho como do alambique era o vapor produzido pela caldeira, a partir da queima de lenha e bagaço. Neste caso entra em cena o foguista, que era o responsável pelo bom funcionamento da caldeira. Esta função era especializada dentro do engenho. Do bom funcionamento da caldeira dependia o funcionamento adequado das demais unidades de produção do engenho. Como se trabalhava com vapor a alta pressão, a atenção deveria ser constante. A caldeira poderia ser comparada a uma panela de pressão de grandes dimensões, ou seja, tem um valor de pressão máxima a que poderia ser submetida. Caso esta pressão ultrapasse o valor máximo, a caldeira poderia não suportar o excesso, podendo causar um acidente de grandes dimensões.

O principal combustível da caldeira era a lenha. Esta lenha tinha de ser adquirida de fornecedores da região. Quando o terreno era aberto para o plantio da cana, as árvores eram derrubadas e cortadas para servirem de combustível para a caldeira. Daí a importância da utilização do bagaço como combustível. Sua utilização diminuía o custo da produção.

O caldo da cana ou garapa obtida após a moagem era armazenado em grandes tanques de madeira para fermentar. Este processo durava de seis a sete dias para ficar no ponto de ir para o alambique, onde a cachaça era extraída. Para acelerar o processo de fermentação, ao caldo da cana era adicionado, na proporção de um para um, a surrapa, que era o produto que sobrava após a extração da cachaça, no alambique. O restante da surrapa era descartado.

Durante o processo da fermentação, o aumento de temperatura era tal, que a mistura do caldo de cana e surrapa fervia naturalmente. O ponto para que a mistura pudesse ser levada ao alambique era quando, após a fervura, ou o completo processo de fermentação, a mistura esfriava.

O produto final no engenho era a cachaça. Era ela que movimentava todo o sistema econômico dos engenhos da região. Sua produção vinha da destilação do produto resultante da mistura da garapa com a surrapa, após a fermentação, através do alambique. O lambiqueiro era a pessoa responsável pela operação do alambique e era uma das funções mais especializadas da linha de produção da cachaça. Nosso informante se declarou um excelente lambiqueiro. No auge da produção o trabalho no alambique poderia adentrar noite adentro, era o chamado serão no engenho.

O alambique era um grande destilador. Um destilador é um instrumento utilizado para separar uma substância particular de uma mistura líquida. Para isto é necessário que se conheça o ponto de ebulição[4] da substância que se pretende separar da mistura. Neste caso, em particular, a substância a ser separada era o álcool ou cachaça da mistura fermentada de garapa e surrapa.

Para produzir a cachaça, a mistura era fervida em um grande depósito de aço ou de cobre, até o ponto de ebulição da cachaça. Ao atingir este ponto o vapor obtido era resfriado de modo a voltar para o estado líquido, neste caso a cachaça. 

A qualidade da cachaça dependia da graduação usada para a sua extração. O valor exigido era 21 graus. Os grandes compradores tinham o seu instrumento de verificação da qualidade do produto, chamado por eles de alcoômetro, que servia para comprovar se realmente a cachaça em questão tinha 21 graus. Uma cachaça com uma graduação abaixo deste valor era uma cachaça fraca e acima era uma cachaça forte.

O Processo de Comercialização da Cachaça - Aqui começa-se a falar sobre a Cocal.

Da cachaça produzida, uma parcela muito pequena era vendida para os consumidores do próprio município, outra parcela era comercializada para Belém, no entanto, a maior parcela tinha como destino o Estado do Amazonas. Neste caso, tinha as pessoas que compravam esta cachaça nos diversos engenhos do município, engarrafavam, dando a ela uma marca, para em seguida fornecerem para consumidores do Amazonas.

No caso do engenho São Jorge, o maior comprador da cachaça ali produzida era a firma A Fonseca e Cia, conhecida como Porto Cocal ou simplesmente Cocal. Esta firma tinha sua sede em São Sebastião da Boa Vista. A cachaça por eles comprada era engarrafada, recebia uma marca, e era fornecia para as pessoas que comercializavam este produto através dos rios do Estado do Amazonas. Eram estas marcas que tinham a fama e não o verdadeiro produtor da cachaça, mesmo porque, a firma comprava a cachaça de vários produtores e comercializava a partir de uma única marca.

No caso da firma Cocal, quem geralmente realizava o transporte do produto dos engenhos para a sua sede era o Navio Coronel Sampaio, por ser de grande porte. Este Navio fazia uma viagem para Belém, na volta, abastecia de cachaça, pagando avista, e levava o produto adquirido nos engenhos para o Cocal, onde revendia para obter o seu lucro.

Além desta firma, que era a principal compradora por ter condição de adquirir o produto, pagando no dinheiro vivo, todas as semanas, existiam outros compradores considerados de pequeno porte quando comparados com o Cocal.

Um deles era o Zé Farias, de Cametá. Do próprio município tinha o Dário Pantoja, conhecido por Caboquinho, o Zé Fonseca, o Teófilo Pantoja, o Amadeu Pinheiro Corrêa, o Joaquim Pinheiro Corrêa, o Nicanor, entre outros. Estes compradores adquiriam a cachaça, engarrafavam e comercializavam diretamente nos rios do Amazonas. No entanto, a produção era maior do que a capacidade de aquisição destes compradores, não restando outra alternativa senão repassar a maior parcela para a firma Cocal.

O Recolhimento dos Impostos

Os impostos eram recolhidos tanto para o Município como para o Estado. O processo se dava a partir de um talão de notas fiscais fornecidas pela Prefeitura e Coletoria do Estado. Ao vender o produto, em grandes quantidades, era extraída a nota fiscal. A prestação de conta e, consequentemente, o imposto recolhido era realizado de acordo com a quantidade de produto constante nestas notas. Esta prestação de conta ocorria mensalmente, tanto na Coletoria do Estado, quanto na Prefeitura.

Para Concluir

A produção de cachaça e, sua comercialização, foi de grande importância para a economia do município de Igarapé-Miri. No auge da sua produção, no princípio do século XIX, o município chegou a ter cerca de 100 engenhos em funcionamento dentro seus limites territoriais.

O engenho aqui em questão funcionou por cerca de 40 anos, encerrando suas atividades em meados da década de 80, do século passado. Para o seu proprietário, o motivo que o levou a encerrar as atividades no engenho foi a carência de mão de obra. Para ele, a cachaça importada de outros estados não fazia concorrência com aquela produzida no município, pois esta era de melhor qualidade e aceitação por parte dos consumidores.

Atualmente não existe mais nenhum engenho em funcionamento no município, daí a importância deste texto, como uma contribuição para a memória desta atividade, que perdurou por pelo menos três séculos em nosso município.

Referência

A História da Cana-de-açúcar – Da Antiguidade aos Dias Atuais. Resumo do texto "Brasil, a doce terra", de Fúlvio de Barros Pinheiro Machado.
LOBATO, Eládio Corrêa. Caminho de Canoa Pequena: História do Município de Igarapé-Miri, Belém: Imprensa Oficial, 2ª Ed. 1985.

Notas

[1] Igarapemiriense, nascido no Rio Mamangal Grande, Mestre em Educação em Ciências, pelo Núcleo Pedagógico de Apoio ao Desenvolvimento Científico, da Universidade Federal do Pará.
[2] Agenor Silva de Lima, nascido em 5 de outubro de 1931. Acredita que tinha 25 anos quando assumiu a administração do engenho São Jorge.
[3] Na obra Caminho de Canoa Pequena é apontada, como origem da cana, a região de Bengala, no Industão.
[4] Temperatura na qual uma substância passa do estado líquido para o estado gasoso.

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