19 de jan de 2016

SÃO PAULO, R$ 3,80.BUENOS AIRES, R$ 1,00


Por que os ônibus em Buenos Aires custam quase quatro vezes menos que os de São Paulo - e são melhores



A última vez que os preços dos ônibus subiram em Buenos Aires foi junho de 2014. Desde então, apesar de uma inflação superior a 30% nesse período, a passagem mais barata de ônibus na cidade – por um trecho de até três 3 km de distância – continua em 3,0 pesos argentinos, equivalentes a 86 centavos de real. Uma passagem de uso mais comum, por trajeto de até 12 km, custa 3,50 pesos. Exatamente um real, pelo câmbio de hoje. 


Quem garante essas passagens quase quatro vezes mais baratas que os 3,80 reais de São Paulo (inclusive em dólares) é o contribuinte argentino. O governo federal gastou no ano passado 25,5 bilhões de pesos com subsídios aos passageiros de ônibus urbanos na Grande Buenos Aires. A quantia equivale a 7,3 bilhões de reais. Na cidade de São Paulo, o gasto anual com subsídios é de 1,9 bilhão de reais, que são pagos pela prefeitura, não pelo governo federal.

As diferenças de valor se explicam por diferentes proporções de subsídios.

Ônibus em Buenos Aires: melhor e mais barato que em São Paulo (Foto: Wikimedia Commons)

Enquanto em São Paulo a prefeitura cobre 31% do preço da passagem, para evitar que ela fique ainda mais cara para os usuários do ônibus, em Buenos Aires o governo argentino cobre 70% do valor da tarifa. Ou, posto de outra forma, quem pega ônibus urbano em São Paulo paga 70% do valor real da passagem. Aqui, em Buenos Aires, paga-se apenas 30% do valor. O governo federal arca com o resto. Como o salário mínimo aqui equivale e R$ 1731,00, quase o dobro dos nossos R$ 880,00, resulta que eles recebem o dobro do salário e gastam quase quatro vezes menos com a passagem de ônibus. Se tudo for convertido a dólares, as proporçõe se mantêm.

Os demais números do sistema são parecidos. A frota da Grande Buenos Aires é de cerca de 18 mil ônibus, para uma população de cerca de 15 milhões. Em São Paulo, são 14 mil ônibus para 12 milhões.

O que não se parece é a qualidade do transporte por ônibus nas duas cidades.

Durante o dia, os ônibus de Buenos Aires passam a cada 5 minutos, com uma infinidade de linhas que se espalham por toda a cidade. Para quem está acostumado a São Paulo, é um choque – há ônibus para toda parte e a todo momento, e eles andam mais rápido, porque os engarrafamentos são menores. À noite, a frequência cai, mas os ônibus continuam circulando 24 horas. É comum viajar de pé nos ônibus de Buenos Aires, mas ainda não topei com esmagamento humano obsceno e pessoas penduradas na porta, ultrajes diários nos ônibus de São Paulo.

Em Buenos Aires, paga-se bem menos e anda-se de ônibus muito melhor.

Durante um café da manhã no sábado passado, o secretário de Transportes da cidade, Juan José Mendez – um economista de 37 anos, que está há seis na prefeitura – me lembrou que existe uma tradição de bom transporte público em Buenos Aires. A cidade foi a primeira na América Latina a montar uma rede extensa de trens urbanos no final do século 19, e tem hoje uma malha de 800 quilômetros. Seu metrô é de 1913 (tem 60 km de linhas) e os ônibus, até os anos 1980, eram considerados um exemplo de eficiência. Na década de 1990, com o início da crise econômica do país, o investimento no transporte público desabou, a qualidade diminuiu e as pessoas começaram a fugir para o transporte privado. Hoje em dia, 14% dos deslocamentos em Buenos Aires se fazem em carros.

“Nós chegamos a prefeitura em 2007 com o propósito de recuperar o transporte público e estimular as pessoas a deixar o carro em casa”, diz Mendez, que é do mesmo grupo político de Maurício Macri, que acaba de assumir a presidência da Argentina depois de duas gestões como prefeito de Buenos Aires. Desde então, se criaram faixas de ônibus com horário exclusivo e linhas de BRT (aquelas estações de embarque de ônibus que funcionam quase como metrô de superfície), com o objetivo de encurtar o tempo das viagens e torná-las mais agradáveis. Os motoristas privados e os 37 mil taxistas da cidade reagiram mal no início, mas foram cooptados pelo sucesso dos projetos.

“Tem de haver equidade no uso do espaço público e o Estado é responsável por arbitrar isso. Os carros não podem transportar 25% das pessoas e ocupar 95% do espaço das ruas”, diz Mendez. Em Buenos Aires, os deslocamentos se fazem 65% em ônibus, 14% em metrô, 14% em carros e 4% em bicicletas. Há 150 km de ciclovias na cidade – inclusive nos bairros afastados – que chegarão a 200 km até o final do ano. “Em 2010, quando começamos a implantar ciclovias, nos diziam que aqui não era Amsterdã. Nós respondíamos que, na verdade, aqui era muito melhor: além de termos uma cidade plana, não neva”.

Embora tenha assumido há somente cinco semanas, o novo governo federal argentino tem tomado atitudes duras. Demitiu dezenas de milhares de servidores contratadas pelo governo anterior, mandou reprimir manifestações de trabalhadores, adotou a flutuação livre do preço do dólar (mesmo sabendo que isso vai causar alguma inflação), acabou com os impostos sobre exportação agrícola (mesmo sabendo que isso vai diminuir as receitas do Estado) e prometeu manter a inflação entre 20% e 25% ao ano, custe o que custar, mesmo que haja atrito com sindicatos nas negociações salariais. O governo também disse claramente que vai rever os subsídios que mantém o custo da energia elétrica artificialmente baixo inclusive para os ricos. A promessa de Macri é reinstalar a racionalidade de mercado numa economia que estava (e ainda está) toda amarrada por controles e subsídios.

Mesmo movido por essas convicções liberais, o novo governo argentino ainda não disse uma palavra sobre acabar com o subsídio ao transporte urbano – embora ele, sozinho, custe no país inteiro o dobro do orçamento da Saúde, 25 vezes mais que o orçamento de Cultura e tenha o mesmo valor da verba gasta anualmente com Educação. Parece que Macri tentará dar um jeito no problema sem produzir um choque de tarifas. A ideia de que o transporte barato e de qualidade é um direito dos cidadãos – e pode se transformar num enorme problema social – parece estar implantada mais fundo na mente dos políticos argentinos do que na de seus colegas brasileiros. O resultado dessa diferença pode ser visto nas ruas de São Paulo, onde o preço elevado de um transporte ruim é garantido somente pela violência da repressão policial. Aqui, em Buenos Aires, ônibus e passageiros circulam em paz. Sem gás, naturalmente.

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