20 de out de 2016

QUEBRA DE SIGILOS BANCÁRIOS REFORÇA SUSPEITA SOBRE SÍTIO USADO POR LULA


LAVA-JATO MAPEIA TRANSAÇÕES SUSPEITA DE FILHOS DE LULA

Laudos apontam para aluguéis de fachada e lançam luz sobre sócio dos Lula da Silva que, durante o governo petista, faturou quase R$ 1 bilhão

 Laudos devem reforçar mais uma acusação contra o ex-presidente (VEJA.com/VEJA/VEJA)

Laryssa Borges Hugo Marques - Os novos laudos anexados pela Operação Lava-Jato ao inquérito que investiga a compra do sítio usado pelo ex-presidente Lula em Atibaia revelam uma intrincada teia de operações financeiras entre empresas registradas em nome dos filhos do petista e de seus sócios. As informações levantadas pelos peritos federais a partir da quebra de sigilo bancário dos investigados servirão para subsidiar as conclusões da Polícia Federal, que em breve deverá indiciar pela quarta vez o ex-presidente. O que foi levantado reforça a suspeita de que o sítio foi comprado e reformado com dinheiro de origem suspeita. Em um dos laudos, os peritos concluem que, embora apareçam como compradores da propriedade, os empresários Jonas Suassuna e Fernando Bittar, sócios do primogênito de Lula, não custearam sua reforma – os investigadores têm indícios de que as obras foram pagas por empreiteiras do petrolão, como a OAS. Os peritos lançam suspeitas, também, sobre outros imóveis usados pela família Lula da Silva. A seguir, algumas das conclusões dos documentos anexados nesta quinta-feira ao inquérito que tramita na Justiça Federal do Paraná.

Uma movimentação quase bilionária – Com atuação em diferentes áreas – de tecnologia a imóveis, de edição de livros à produção de discos – as empresas de Jonas Suassuna, sócio de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, registraram o recebimento de 750 milhões de reais entre os anos de 2004  e 2016. A informação consta de laudos anexados nesta quinta-feira pela Polícia Federal ao inquérito que investiga a compra do sítio frequentado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Jonas Suassuna aparece formalmente como um dos donos do sítio, ao lado de Fernando Bittar, outro sócio dele e de Lulinha.

Entre as principais pagadoras do conglomerado de Suassuna aparecem a companhia de telefonia Oi e outras controladas pela Andrade Gutierrez – foram 76 milhões de reais no período, distribuídos entre várias firmas de Suassuna. A Oi, antiga Telemar, é sócia da Gamecorp, uma das empresas de Lulinha – de acordo com os registros oficiais, a companhia pagava por serviços prestados por Suassuna. Chama atenção que uma parte significativa dos valores que entravam nas contas da empresa seguia para as contas de pessoa física de Jonas Suassuna. E o empresário, ao mesmo tempo em que recebia os milhões, investia uma parcela do dinheiro em imóveis para usufruto da família Lula da Silva, como o sítio de Atibaia e o apartamento  de luxo ocupado por Lulinha em uma das áreas mais nobres da capital paulista. O filho mais velho do ex-presidente sempre alegou que pagava aluguel a Suassuna, mas as investigações, mais uma vez, desconstroem o argumento, como se verá a seguir.

O aluguel de fachada – Primogênito do ex-presidente, Fabio Luis Lula da Silva, o Lulinha, mora no confortável apartamento 231 da Avenida Juriti, 73, em São Paulo. O imóvel é avaliado em 6 milhões de reais e, mobiliado, tem aluguel estimado de 40.000 reais mensais. Mas Lulinha, que era monitor de um zoológico até ascender de forma nebulosa no mundo empresarial, mora praticamente de favor no imóvel, que pertence a seu sócio, Jonas Suassuna Filho. Ele repassou eventualmente entre maio de 2014 e fevereiro de 2016 mensalidades de 15.000 reais a Jonas, mas investigadores da Operação Lava Jato não acreditam se tratar de um aluguel a preços camaradas. “Essas transferências não contemplam todos os meses do período de maio de 2014 fevereiro de 2016, assim como seriam em valor inferior à estimativa realizada pelo fisco federal para valor do aluguel do imóvel”, diz um laudo da Polícia Federal que analisou a movimentação financeira e a evolução patrimonial de Lulinha de 2004 a 2014. Detalhe: não há qualquer registro de que o apartamento tenha sido alugado a Lulinha.

O caso não é único na família. O mesmo se repete com o filho caçula do ex-presidente, Luis Cláudio, que mora no bairro dos Jardins em um apartamento em nome da empresa Mito Participações, que tem como cotistas a mulher e as filhas de Roberto Teixeira, advogado e compadre de Lula. Antes de ser comprado por Teixeira e ocupado por Luís Cláudio, o apartamento pertencia a uma empresa sediada em paraíso fiscal.

O patrimônio a descoberto do caçula de Lula – Exames econômico-financeiros feitos nas contas de Luis Claudio Lula da Silva, que recentemente foi anunciado como o mais novo contratado de um clube de futebol uruguaio, mostram “movimentação bancária incompatível” do filho caçula do ex-presidente Lula. A Polícia Federal analisou dados bancários de 2011 a 2014 e concluiu que a variação patrimonial do filho do petista é incompatível com seus rendimentos. Apenas em 2013, o patrimônio a descoberto ultrapassa os 200.000 reais, em grande parte por conta de valores astronômicos gastos no cartão de crédito. Em apenas um dia, Luis Claudio chegou a gastar mais de 50.000 reais no cartão. No dia 3 de junho de 2013, Luís Claudio fez duas compras com seu cartão de crédito da Agência Prime do Bradesco de São Bernardo do Campo que somaram 56.199 reais. No dia 1º de julho, as duas compras no cartão de crédito somaram 31.816 reais. Um mês depois, duas novas compras no cartão de crédito somaram 36.572 reais.

Dos cerca de 1,43 milhão de reais em rendimentos brutos de Luis Claudio mapeados pela PF entre 2011 e 2014, 246.000 reais foram distribuição de lucros e dividendos da LILS Palestras, mesmo ele não tendo qualquer participação societária na empresa do pai, e 780.000 reais foram oriundos da LFT Marketing, empresa que recebeu 2,4 milhões de reais de lobistas investigados na Operação Zelotes por suspeitas de pagar propina.

Os ‘donos’ do sítio não pagaram pela reforma da propriedade – Jonas Suassuna, sócio de Lulinha e um dos donos oficiais do sítio em Atibaia que o ex-presidente Lula insiste em dizer que não é seu, não declarou ao Fisco nenhuma das benfeitorias que realizou na propriedade. A conclusão é da Polícia Federal, que analisou dados bancários do empresário em investigação da Operação Lava Jato. Conforme revelaram delatores do petrolão, as melhorias na propriedade, feitas para garantir mais conforto a Lula, foram pagas com dinheiro de empreiteiras investigadas e seriam uma forma de quitar favores que as empresas deviam ao petista. Laudo da PF destaca, por exemplo, que apesar de Jonas ter lastro financeiro para comprar o imóvel e o reformar como bem entendesse, ele não declarou, por exemplo, 215.322 reais em benfeitorias e nem há qualquer sinal de movimentação bancária dele para justificar que o pagamento tenha saído de seu bolso. Ao cruzar os dados, a Polícia concluiu que o empresário tem um “padrão elevado de despesas não declaradas” – mais de 400.000 reais mensais.

O outro dono formal do sítio de Atibaia, o empresário Fernando Bittar também não declarou as reformas feita no sítio Santa Bárbara, no valor de 1 milhão de reais. Segundo a PF, Bittar não possuía lastro patrimonial para a realização das obras. A única benfeitoria no sítio declarada por ele foi a aquisição de um gerador de energia por 51.710 reais, em 2011. A PF encontrou divergências entre a movimentação financeira e os rendimentos declarados por Bittar. Na lista de incompatibilidades está a movimentação financeira de Bittar a partir de créditos recebidos da Gamecorp, empresa da qual é sócio junto com Lulinha.  A movimentação financeira de Bittar apresenta créditos da Gamecorp no valor de 342.000 reais, enquanto ele e a empresa declaram 417.000 reais.

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