6 de mar de 2017

Coronel Ulysses diz: “Foquei minhas ações na guerra contra facções, mas jamais aceitaria maquiar as estatísticas”


O mais experiente coronel na ativa da Polícia Militar do Acre, Ulysses Araújo diz que é possível, com investimentos, fazer uma Segurança no Acre semelhante a de países de primeiro mundo

FOTOS: ASTORIGE CARNEIRO / ARTE DE CAPA: WEVERTON SILVA


Jairo Carioca - A triste realidade de completa insegurança pública no Estado do Acre é refletida através de números oficiais. Desde de outubro do ano passado, execuções provocadas na guerra pelo controle do tráfico de drogas entre facções, principalmente em Rio Branco, tornaram-se rotina. Enquanto isso, o cidadão de bem se vira como pode. Quem tem condições passou a gastar mais com segurança privada, mas quem não tem está recolhido dentro de casa, com medo e a sensação de insegurança.


A ContilNet estreia neste domingo uma série de entrevistas comandadas pelo jornalista Jairo Carioca, que recebeu na redação do site, no centro de Rio Branco, o mais antigo coronel da Polícia Militar do Acre na ativa, Ulysses Araújo. O oficial aceitou o convite para falar sobre Segurança Pública neste momento em que a violência aflige todos os municípios do Estado, sem escolher fronteira e nem limites.

Filho de uma família de militares – o pai foi sargento do Exército Brasileiro – Ulysses é natural de Cruzeiro do Sul, onde foi oficial de Infantaria e Selva, ingressando na Polícia Militar em 1992. Voz branda e olhar atento, mesmo afirmando que não existe um Plano de Segurança Pública no Estado para combater a criminalidade, o coronel não culpa o comando da Polícia Militar e nem o secretário de Segurança Pública por essa ingerência. Para ele, falta vontade política em quem comanda as polícias. “Estamos longe de alcançar resultados porque nossa polícia corre sempre atrás do prejuízo, quando a ação tinha que ser preventiva”, explicou.

Para Ulysses, que é casado e tem um filho de 16 anos, o Estado falhou no investimento em Educação e na geração de emprego e renda. “O jovem que está morrendo e o que está matando nasceu nesse governo que não lhe deu oportunidade”, destacou.

Formado em Direito pela Universidade Federal do Acre, com pós-graduação na área de Processo e Direito Civil, além de especialização em Processo Penal Militar, Ulysses acrescenta nessa fórmula de menos emprego e mais jovens fora da escola, a certeza da impunidade. Ele defende uma ampla reforma no Código Penal e o fim do pensamento do que chama de “direitos humanos de esquerda”.

Fundador do antigo Comando Operações Especiais (COE) e comandante do Batalhão de Operações Especiais (Bope) entre 2010 e 2011, Ulysses foi um dos coronéis que levantou a voz contra a extinção Grupo de Intervenção Rápida Ostensiva (GIRO), que para ele é fundamental nas respostas rápidas no combate à violência. “Sem polícia o Estado está propenso ao caos”, observou.

Da experiência de vida nos Estados Unidos, onde morou com a família, o coronel defende o respeito ao Policial, autoridade, segundo ele, mais respeitada em países de primeiro mundo. Para Ulysses é possível fazer Segurança Pública no Acre com índices de países como a Suécia, Suíça e outras regiões de primeiro mundo: “Basta ter vontade política, investir no aparelhamento das polícias e na qualidade de vida de quem está na rua combatendo o crime”, receitou.

O que aconteceu no Estado do Espírito Santo foi colocado pelo oficial como fator importante que mostra a importância da polícia nas ruas. Para ele, o cidadão de bem foi para as ruas saquear alimentos não só pela natureza do próprio homem, mas por falta de limites. “O primeiro limite é a Polícia, é por isso que nos Estados Unidos o policial é o mais respeitado”.

Ulysses citou a Operação Lava Jato como uma grande oportunidade do país estabelecer mudanças e uma limpeza política para a volta do respeito ao parlamento brasileiro. “Pretendo levar um pouco de coragem sem medo para dentro do Congresso Nacional”.

Ao abordar a crise vivida pela ação das facções Ulysses revelou que o Estado maquiou e escondeu informações sobre a Segurança Pública, por isso foi pego de surpresa quando a situação estourou.

Veja na íntegra a entrevista feita pelo jornalista Jairo Carioca:


Jairo Carioca – Por que o senhor saiu do subcomando da Polícia Militar depois de ter aceitado o convite do Palácio Rio Branco para o desafio da Segurança Pública?

Coronel Ulysses – Tentei ser neutro às questões políticas que envolvem esse setor, não interferia nas estatísticas, foquei minha força no combate às facções. Mas a partir do momento em que você passa a ser obrigado a prestar declarações maquiando números e dizendo que está tudo tranquilo, quando na verdade não está, a coisa muda. Aí a retirada da etapa alimentação foi a gota d’água para eu sair de uma função que não me foi dada pela tropa, mas pelo governo.

Jairo Carioca – A escolha de comandantes e subcomandantes como cargos políticos interfere na gestão da Polícia Militar?

Coronel Ulysses – Interfere porque nem sempre essas funções são escolhidas por competências ou com o perfil correto. O governo pode escolher qualquer coronel de forma livre. Isso prejudica a hierarquia e disciplina da Polícia Militar. Eu defendo uma lista tríplice escolhida pela tropa.

Jairo Carioca – A indicação política para esses cargos acaba tirando a autonomia do comando militar?

Coronel Ulysses – Do modo como acontece hoje não existe autonomia administrativa e nem operacional para fazer o que a sociedade precisa, mas o que o governo transitório quer que ele faça. Isso é muito prejudicial para a Polícia Militar e a área de Segurança Pública que é algo complexo, difícil de se realizar, mas algo que a sociedade precisa como essencial, assim como são a Saúde e a Educação.

Jairo Carioca – Até que ponto essa perda de autonomia financeira e operacional prejudica as atividades da Polícia Militar no Acre?

Coronel Ulysses – Veja bem, há muito tempo se coloca a necessidade de efetivo para a Polícia Militar, que tem hoje 2.500 homens para atender todo o Estado, destes 400 estão à disposição, sobram 2.100. Deveríamos ter em torno de 4.700 homens. Estão sugando as horas de lazer do policial militar, e isso acarreta uma série de outros prejuízos não só para a Segurança Pública, mas a saúde do próprio policial.

O maior prejudicado é o cidadão. O orçamento é irrisório, gasta-se mais com outras coisas do que com a Polícia Militar. Em Estados como São Paulo, que investiu pesado em Segurança Pública, vimos resultados expressivos, o maior Capital do país conseguiu ficar abaixo do nível epidêmico considerado pela ONU de homicídios por 100 mil habitantes. Ficou com 9, enquanto no Acre a violência subiu 80%.

Se houver uma crise hoje a Segurança Pública não tem viaturas, depende de veículos descaracterizado de outros órgãos. Falta gasolina. Sem o Governo Federal a situação seria pior.

Jairo Carioca – O clima de insegurança e a atuação das facções estão sendo interiorizadas, como o senhor ver essa migração do crime organizado?

Coronel Ulysses – O mal se não for cortado pela raiz tende a crescer. Se as polícias do Acre tivessem os recursos necessários a situação seria outra. A polícia tem o treinamento e recursos necessários para isso. E eu não culpo o comandante e nem o secretário, eles estão de mãos atadas. Não têm vontade política.

Jairo Carioca – A bancada federal procurou o Estado para agilizar a liberação de recursos, mas a Secretaria de Segurança levou dez dias para apresentar um plano de investimentos. Falta um projeto para Segurança Pública?

Coronel Ulysses – Não existe um plano de Governo para combater a segurança. A nível nacional, o que é gasto com segurança chega a 76 bilhões, o que o governo gasta com os efeitos da violência chega quase a R$ 1 trilhão. O presidiário custa um triplo a mais do que um estudante brasileiro. Nos Estados isso ainda é mais elevado. Está tudo invertido. Há uma verdadeira inversão de valores. Os presídios recebem o dobro de sua capacidade de lotação. As rebeliões iriam estourar a qualquer momento.


Jairo Carioca – Coronel, eu costumo dizer que o Estado age em um sistema rabecão, ou seja, está sempre correndo atrás do crime organizado. É preciso mudar de estratégia, já que o governo não troca o comando?

Coronel Ulysses – Não estamos nem de longe seguindo a técnica correta. Corremos sempre atrás. A ação da polícia tem que ser preventiva. Temos cerca de 154 bairros em Rio Branco. Se tivermos investimentos e incorporação de recursos humanos, é possível estar presente em cada região dessa. Acontece que Segurança nesse governo não é vista como prioridade, seguem então os prejuízos não somente para o cidadão, mas isso se reflete também na Educação e na Saúde.

O remédio é uma combinação de presença policial nas ruas, que daria uma sensação de maior segurança e a operação de saturação máxima. Geração de emprego e Educação também contribuem muito, mas isso falhou, o jovem que mata e o que morre nasceram nesse governo.

Ulysses largou o gabinete para ir às ruas, lutar contra o crime organizado ao lado de seus comandados /Foto: Reprodução

Jairo Carioca – Por que a Polícia Militar do Acre abandonou o Policiamento Comunitário?

Coronel Ulysses – Isso funciona muito bem em países desenvolvidos, com outra ação que são os veículos de apoio patrulhando, divididas em áreas pequenas, dando apoio aos militares. Aqui tudo isso é possível fazer. Se tiver os meios necessários temos condições de oferecer índices de Segurança Pública semelhantes aos de países como a Suécia, Suíça e outros países de primeiro mundo.

Jairo Carioca – A crise vivida no sistema carcerário é entendida pelo Judiciário, o Ministério Público e os defensores públicos, não parece existir uma grande confusão nessa guerra vivida atualmente?

Coronel Ulysses – Isso se deve a um fator chamado impunidade. A certeza da punição é um fator que diminui a criminalidade. Mas a certeza de que você não será punido ou de que vai cometer um crime e logo estará solto, tudo isso leva ao crescimento da violência.

Precisamos de políticos sérios dentro do Congresso para mudar a lei, porque o Judiciário às vezes fica de mãos atadas. A punição é para dar exemplo, as pessoas estão com pensamento dos direitos humanos de esquerda. Os crimes hediondos devem ser punidos com rigor. Temos a quarta maior população carcerária do mundo, maiores índices de reincidência, tudo isso vem da falta de seriedade do critério chamado punição.

Jairo Carioca – O maior desafio do próximo governo será Segurança Pública, o senhor acredita que até lá esse problema estará equacionado?

Coronel Ulysses – Eu diria que serão dois os maiores desafios do próximo governante: Segurança Pública e geração de emprego. Rondônia é mais novo do que o Acre, mas tem PIB muito maior, cidades de interior desenvolvidas, o Estado precisa se abrir para o desenvolvimento. Resolver esse problema de guerra entre facções dependerá dos valores que serão investidos e do número de policiais contratados. Precisamos hoje de um plano de ingresso na PM de pelo menos 250 profissionais por ano até alcançarmos o efetivo correto para atender a população.

É preciso aumentar o orçamento da Polícia Militar que paga hoje mal o combustível. Se o dinheiro da bancada federal for empregado na atividade fim da polícia isso pode ajudar muito. O GIRO não pode ser extinto, tem que comprar mais motos para todos os batalhões, é um policiamento rápido, tem mobilidade.

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