13 de jun de 2017

Crise política afeta economia em 2018, com juros caindo menos e dólar mais alto, dizem analistas


Luiz Guilherme Gerbelli - A crise política que abala o governo Michel Temer vai afetar de maneira mais intensa o desempenho econômico do Brasil em 2018, com crescimento mais fraco do que o esperado, basicamente por causa da expectativa de dólar mais caro e queda menor dos juros.

E esse cenário, segundo analistas ouvidos pela Reuters, vai impactar praticamente todos os setores, como indústria, serviços e até investimentos, essencial para impulsionar a economia.

"O processo de recuperação da economia brasileira será lento e não ocorrerá na velocidade esperada", afirmou o pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), Julio Mereb, para quem o Produto Interno Bruto (PIB) vai crescer 1,8 por cento em 2018, abaixo da estimativa anterior de 2,5 por cento.

No cenário de mais pessimismo traçado pelo Ibre, no ano que vem, a expansão da indústria será de 2,4 por cento e de serviços, de 1,2 por cento. Até então, as previsões eram de crescimento de 2,8 e 1,8 por cento, respectivamente.

A crise política eclodiu em meados de maio, após Temer ser atingido pela delação de executivos do grupo J&F e que acabou levando-o a ser investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por crime, entre outros, de corrupção passiva.

A principal dúvida dos agentes econômicos é se o governo, enfraquecido politicamente, vai ter condições de levar adiante no Congresso Nacional reformas importantes, como a da Previdência, essencial para colocar as contas públicas em ordem.

De forma geral, os especialistas acreditam que a reforma previdenciária vai passar, mas atrasada e ainda mais desidratada do que a versão original do governo, o que acabará deixando para o governo que será eleito no próximo ano ajustar as contas.

"A taxa de juros também foi afetada pela crise política", acrescentou o economista da consultoria 4E Bruno Lavieri, ressaltando que reduziu a expectativa de crescimento para 2018 a 1,2 por cento, ante de 2 por cento.

Antes da crise política, Lavieri disse que estava em processo de revisão da expectativa para a Selic, acreditando que ela fecharia este ano a 7,5 por cento, mas agora mantém o cenário de 8,25 por cento.

Hoje, a Selic está em 10,25 por cento ao ano após sucessivos cortes feito pelo Banco Central desde outubro passado. Mas, justamente pelo cenário político delicado e incertezas no campo fiscal, o BC já avisou que vai reduzir o ritmo de cortes, mesmo com a inflação cada vez mais fraca e a economia patinando.

A queda dos juros, embora tenha efeito defasado na economia, é considerada fundamental para garantir crescimento de mais longo prazo ao colaborar para reduzir o custo dos empréstimos de empresas e famílias, ajudando na retomada do investimento e consumo.

DÓLAR E DESEMPREGO

A incerteza com o sucesso do governo Temer na área fiscal provocou ainda alta do dólar ante o real diante da maior percepção de risco dos investidores com a economia brasileira.

Desde a delação dos executivos da J&F, o dólar saiu do patamar de 3,10 reais para o atual de 3,30 reais, o que pode prejudicar a tendência de queda inflação e, consequentemente, obrigar o BC a ser mais duro na condução da política monetária.

"O cenário político mais conturbado deve postergar a tramitação das reformas, dificultando o reequilíbrio fiscal e consequentemente impactando a confiança dos agentes e os preços dos ativos", afirmou em nota o economista-chefe do banco Itaú Unibanco, Mario Mesquista.

Nas contas dele, o dólar deve ficar em 3,50 reais no fim de 2017 e 3,60 reais em 2018, sobre previsão anterior de 3,25 e 3,35 reais. Para o crescimento do PIB, a estimativa agora é de 0,3 por cento este ano e 2,7 por cento em 2018.

Na pesquisa Focus do BC, que ouve semanalmente uma centena de economistas, as previsões antes do estouro da crise eram de que o PIB cresceria 0,5 por cento neste ano e 2,50 por cento em 2018. Agora, as contas caíram a 0,41 por cento em 2017 e, com mais força, a 2,30 por cento no próximo ano.

"Todo esse cenário prejudica bastante o mercado de trabalho. A recuperação (do emprego) que a gente esperava para meados deste ano só deve ocorrer no segundo semestre do ano que vem", disse Mereb, do Ibre, cuja projeção é de que a taxa de desocupação vai atingir o pico no primeiro trimestre de 2018, a 14,4 por cento. Hoje, ela está em 13,6 por cento.

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