18 de jul de 2011

MONTAGEM DE NAVIOS MADE IN BRAZIL

por Erik Azevedo

Afinal o que temos no Brasil, construção ou montagem de cascos?

Deixemos o ufanismo de lado, os devaneios nacionalistas, e coloquemos os pés no chão, sim estamos novamente vivendo um novo ciclo de desenvolvimento na indústria marítima nacional, porém vamos analisar lá na quilha, sim a origem deste novo ciclo e friamente, vamos chegar a algumas realistas conclusões lendo esta matéria.

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Estaleiro Aliança-Construção própria do Grupo CBO, navios de projeto Inglês (Rolls Royce Marine)

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Parte do maior complexo de construção naval do mundo, os estaleiros HHI (Hyundai Heavy Industries, na Coreia do Sul), da qual jogam na água uma média de 1 navio pós-panamax, por semana!

Quem passa hoje pela ponte Rio x Niterói, não pode deixar de notar que estaleiros notadamente os do lado de Niterói, andam bem ocupados, desde o principio do ano 2000, sem duvidas é algo para nos alegrar e até orgulhar sem dúvidas. Porém olhando mais atentamente, e com um olhar sem paixões, e deixando caprichos de lado, podemos notar também que os grandes estaleiros, como o antigo Ishibras* (era o maior dique da América Latina), e outros mais, estão ainda completamente parados e sucateados, e analisando mais calmamente, sabemos que quando falamos em construção naval, vem logo a mente navio de grande porte, e não apenas 1 ou 2 navios, mas muitos, vem a mente estaleiros como o Ishikawajima do Japão, ou o Kawasaki, ou um Samsung ou um Hyundai na Coréia do Sul, estaleiros que juntos constroem centenas de navios por ano, e com utilização máxima de processamento, e com carteiras de encomendas pelos próximos 15 anos, sendo a maioria navios para exportação.

*Ishikawajima do Brasil Estaleiros S/A-Ishibras – Cajú.
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Ishibras - Atual Sermetal, em triste estado-Foto Erik Azevedo.

Voltando a nossa realidade brasileira, a “construção” naval, verde e amarela, na verdade tem outras cores, como vermelha e azul, Laranja, ou outras cores mais, isso por que?

Construção naval é muito mais do que apenas, juntar chapas de aço numa carreira ou dique, o casco em si, é algo simples de se montar, praticamente em qualquer lugar em que há um oficina naval e carreira se pode fazer isso, pois as ferramentas e prensas e outras máquinas, são todas importadas, e sua utilização devido a tecnologia se tornou algo bem simples, as máquinas de corte de chapas são computadorizadas, e operadas remotamente (isso em estaleiros modernos), sendo então uma verdadeira linha de montagem naval.

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O maior navio já construído, foi feito nos estaleiros Sumitomo Japão.

Mas o que marca a diferença entre apenas montar cascos e construir é, dominar técnicas e processos, e tecnologias e desenvolvimento de projetos.

Infelizmente o Brasil mais um vez deixa o trem da história passar, pois tínhamos no passado:

-Técnicas de construção próprias;

-E processos adequados a nossa realidade, e desenvolvidos aqui.

A indústria naval brasileira, teve renascimento nos anos 60, e atinge seu pico de produção no começo dos anos 80.

Mas devido a fatores como corrupção, políticas econômicas e estratégias industriais erradas, perdemos a 2ª posição no mundo em volume de tonelagem de construção naval, e fomos caindo até todos os estaleiros nacionais fecharem as portas.

Nos anos 70 estávamos até exportando navios em volume expressivo, tanto que não é incomum ainda encontrarmos pelos mares alguns graneleiros e navios de carga geral, Made in Brazil, ainda a navegar.

Tínhamos, até então, fabricantes de motores, bombas, válvulas, equipamentos eletrônicos e de navegação, com fabricação própria em parceria com indústrias locais, como foram as parcerias nacionais com os fabricantes de motores: MEP MAN, Villares B&W, Ishibras-Sulzer, e outros mais, que investiam numa indústria naval local.

Porem com a quebra do ciclo, que teve inicio no desgoverno Collor, nossa indústria naval, desaparece completamente, e tudo o que foi erguido em 30 anos de trabalho**, se perde em menos de 1 ano, enfim perdemos toda tecnologia, e processos.

**O grupo coreano HHI, tem inicio no ano de 1972, e em menos de 15 anos se torna o maior construtor de navios do mundo, enquanto nossos estaleiros faliam.

Em 1998, marca o inicio de uma nova era no mundo do petróleo no Brasil, até então a Petrobras encomendava todas as suas unidades marítimas, em países como a Holanda, Canadá, Japão, Singapura e Coreia do Sul (ela ainda o faz em parte, com a conversão de FPSO’s e arrendamento através de outros grupos,atitude muito criticada pelo Sindpetro).

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Os estaleiros Samsung se especializaram no projeto e construção de navios especiais.

Com a quebra do monopólio para exploração de hidrocarbonetos, a Petrobras, vê a necessidade de voltar a encomendar embarcações de apoio no Brasil, isso devido a custos de produção por aqui serem em reais, e a outros fatores como:

-A economia mundial estava em ótima fase, e preços de navios nas alturas.

-Todos os estaleiros no mundo estavam ocupados pelos próximos 10 anos.

-O Real estava valorizado, portanto era mais vantajoso montar cascos por aqui mesmo, pois o custo de mão de obra local é ainda inferior.

-Navi-peças – havia na época um conteúdo com mais de 80% sendo importadas, logo com moeda forte, vale a pena importar quase tudo, a construir por aqui.

-Muitos estaleiros ociosos – isto foi uma ótima oportunidade pois havia espaço sobrando (maioria abandonados e sucateados).

Mas o ponta pé inicial se deve a uma empresa local que ousou e disparou na frente.

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Vista parcial dos estaleiros IHH em Kure Japão.

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A triste visão do fracasso e com o resultado: 11 trabalhadores mortos, e em sua maioria terceirizados.

Enquanto a Petrobras despejava milhões de dólares no fracassado projeto da malfadada “P 36″ lá no Canadá, a CBO, investia pesado num arrojado projeto de montagem de novos PSV’s, de última geração, num estaleiro “novo” (PSV este com tecnologia e projetos ingleses).

Apesar de construir ainda no risco a CBO, apostava que seus novos barcos não ficariam sem contrato devido a expansão da atividade petrolífera.

Então concluímos que o novo ciclo de ‘construção’ naval nacional, vem atrelado a industria do petróleo, e não ao comercio marítimo, diferente da maioria dos grandes estaleiros no mundo que tem a maioria de suas encomendas em carteira, compostas por navios ‘tradicionais’.

Vejam por favor o artigo: Série: Empresas de Navegação pelo Mundo – “Cia Brasileira de Offshore”
http://www.blogmercante.com/2010/10/serie-empresas-de-navegacao-pelo-mundo-cia-brasileira-de-offshore/

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CBO CAMPOS, primeiro PSV classe UT-Rolls Royce montado no Brasil. Foto: Erik Azevedo

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Vemos aqui o segundo maior construtor naval do mundo o grupo SHI (Samsung Heavy Industries)- Foto Tonemapped

Por que ainda insisto em montagem de cascos?

Vamos lá, nossa montagem naval, hoje se deve a indústria do petróleo, isto é fato, e os grandes armadores que estão encomendando hoje tem perfil diferente dos “armadores” do passado, com exceção apenas da CBO, De Lima, São Miguel, Camorin, Superpesa, Saveiros Offshore, e alguns outros menores, todos os outros armadores são parte de grandes grupos estrangeiros, ou trazem navios novos construídos lá fora, nacionalizam suas empresas e com isso, passam a ter acesso ao FMM, e podem montar no Brasil projetos de sucesso, que estas empresas já utilizam ha vários anos, que é o caso por exemplo da Edison Chouest Offshore (estaleiro Naviship).

E mesmo assim, os projetos destes ‘barcos’, são todos sob licença, ou seja são importados, e grande parte das navi peças, são importadas, chegando ao conteúdo de mais de 60% da embarcação ser importada.

Se formos notar, os projetos são sempre os mesmos.

-Ingleses (Rolls Royce)

-Canadenses (Robert Allan)

-Holandeses (IHC Gusto, Damen)

-Noruegueses (Vik-Sandvik)

-Americanos (Bollinger e outros)

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Projeto UT da Rolls Royce, a maioria dos PSV "nacionais" são montados a partir deste projeto Inglês.

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Outro projeto que faz sucesso por nossas águas são das classes VS, de projeto norueguês, alguns já sendo montados no Brasil, sob a licença da Wartsila.

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Outro tipo de projeto de sucesso, são os navios da Edison Chouest que são montados no Estaleiro Navship em SC, que são baseados nos projetos da Norte Americana Bollinger, e maquinas da Caterpillar.

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Outro projeto de licença Holandesa que vem sendo montado no Brasil e tem feito sucesso é da Damen B.V.

Logo vemos que técnicas e equipamentos não são desenvolvidos aqui, claro que há a busca para isto, mas nós não estamos exportando tecnologia e nem embarcações.

Para titulo de exemplo, a Romênia e a Croácia, estão no mesmo nível do Brasil, ou seja, montadores de cascos, com a diferença geográfica apenas, o que facilita para o armador encomendar seus navios em blocos.

Ou seja, na Romênia e Croácia, se montam cascos apenas, em seções, da quais são transportados em barcaças, ou rebocados, até diques na Escandinávia (STX Noruega) ou Holanda, ou Alemanha, da qual lá é feito o “assembly”, de todos os equipamentos que darão “vida” ao novo navio.

Sejamos francos, por aqui se faz diferente?

Não, pois o trabalho bruto e mais simples (aço e tubos), é nacional (em partes, pois estão até importando aço), mas as técnicas, projetos, ferramentas, e tecnologia é toda importada, inclusive parte da mão de obra especializada, em equipamentos mais sofisticados, ainda é composta por estrangeiros.

Vemos que mesmo estas empresas abrindo escritórios locais, sua gerencia não é local, o objetivo é apenas fazer negócios por aqui, oque não muda a forma colonial de ser, assim como no passado.

E por isso, temos ainda esta aberração que é esta forma de offshore “brasileiro”, da qual o idioma falado em nossas águas não é o português.

Saibam que no offshore na Noruega, é vetada comunicação em outra língua que não seja o norueguês, e é vetada a operação e uso de embarcações de outras bandeiras na costa da Noruega, e contratação de marítimos que não sejam locais.

No setor Britânico do Mar do Norte não é muito diferente, pois é dificultada ao máximo a entrada de estrangeiros no setor de atuação deles, e assim também no setor Holandês.

Ou seja, cada qual defende seus interesses.

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Estaleiro Hyundai o maior do mundo, nesta foto vemos o setor "divisão offshore", com uma FPSO conceito.

Porém alguns aqui no Brasil, por passarem na ponte e verem alguns navios descendo a carreira, se iludem achando que estamos com a bola toda.

Porém olhando para dentro da Baia de Guanabara, qualquer um que saiba um pouco sobre offshore, ficaria perplexo com a quantidade de novas embarcações estrangeiros que estão fundeadas, em sua maioria esperando licenças para operar em AJB, com uns parcos tripulantes Brasileiros, e uma montagem de navios, com conteúdo de 60% de navi peças importadas, e com estaleiros que em sua maioria estão na 3ª geração, enquanto que os concorrentes Europeus e Asiáticos, já estão na 6ª geração tecnológica.

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Grande quantidade de embarções "offshore" em nossas águas, porem arvorando outras bandeiras- foto feita na ponte Rio x Niterói, podemos notar "rebocadores" de vários armadores estrangeiros diferentes.

Mas algums podem dizer: E o grande estaleiro Atlântico Sul, lá em Suape PE, da qual atualmente é o maior construtor nacional?

Vale lembrar que ele utiliza toda a tecnologia Samsung da Coréia do Sul, inclusive boa parte da mão de obra técnica, e processos, próprios da Samung, porem boa parte dos equipamentos são importados, e até mesmo boa parte do aço utilizado nestes futuros 10 novos Suezmax da Transpetro, esta sendo importado, da China, Ucrânia e Coreia do Sul, e segundo dados, o casco de um navio gira em torno de 20 a 30% dos custos totais de fabricação, então temos até mais de 70% dos outros componentes que compõe o custo de um navio, e destes grande parte são importados.

Os estaleiros japoneses, possuem atualmente a mão de obra mais cara no ramo da construção em larga escala, e estão comparados ao custo dos estaleiros Alemães e Escandinavos, e até Americanos.

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Ishikawajima Japão - IHI kure uma verdadeira fábrica de navios com tecnologia de processos de 6ª geração, constroem basicamente para exportação.

Porem devido ao alto grau de desenvolvimento tecnológico, e baixo uso de mão de obra nos processos industriais, organização de processos e desenvolvimento de projetos locais, os japoneses ainda conseguem ser competitivos, e manter ainda a primeira posição na indústria naval mundial, devido ao grande numero de estaleiros espalhados pelo pais como o Sasebo, Hakodate, Imbari, IHI, Suzuki, Kawazaki, Mitsubishi, Sumitomo, Oshima e outros mais, porem são logo seguidos pela Coréia do Sul (Hyundai e Samung e Daewoo) e depois, China (os chineses utilizam boa parte das tecnologias européias e japonesas e sul coreanas).

Referencias: naviosmercantesbrasileiros, Bollinger, Vik-Sandvik, CBO, Samsung, Wikipedia.

http://www.blogmercante.com/2010/12/montagem-de-navios-made-in-brazil/

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