29 de mai. de 2026

Professor ligado à linha-dura iraniana chama Brasil de ‘país fraco’ e descarta papel de mediação no conflito

Mohammad Marandi


O professor Mohammad Marandi, da Universidade de Teerã, próximo à Guarda Revolucionária e a setores da linha-dura do regime iraniano, afirmou que o Irã não vê o Brasil como um ator capaz de contribuir de forma relevante para uma solução diplomática da guerra em curso no Oriente Médio. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Marandi usou palavras duras para avaliar o peso internacional do Brasil e classificou o país como “fraco”.

“Não acho que o Brasil possa fazer muito. Não conseguiu impedir os EUA de ocuparem a Venezuela. O Brasil é um país fraco, não é como o Irã”, disse Marandi. Segundo ele, Teerã não alimenta expectativas de que Brasília possa desempenhar um papel decisivo em uma eventual negociação para pôr fim ao conflito.

O acadêmico também afirmou que esperava uma postura diferente do Brasil diante das ações dos Estados Unidos na região. “Eu esperaria que o Brasil fosse diferente. Mas os EUA podem invadir Cuba e o Brasil não fará nada. Não temos expectativas sobre o Brasil”, declarou.

As declarações ocorrem em meio à escalada da guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, com impactos diretos no Golfo Pérsico, no Estreito de Ormuz e nos mercados globais de energia. Marandi, conhecido por defender posições alinhadas ao establishment iraniano em veículos internacionais, também afirmou à Folha que o Irã pretende manter controle sobre o Estreito de Ormuz por tempo indefinido e que estaria preparado para retomar a guerra, caso necessário.

Apesar do tom crítico, Marandi fez uma distinção entre o Brasil como país e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo a Folha, ele descreveu Lula como uma “boa pessoa”, mas afirmou que o presidente brasileiro não teria capacidade prática para alterar o curso do conflito ou enfrentar a influência dos Estados Unidos.

A fala evidencia o ceticismo de setores duros de Teerã em relação à diplomacia brasileira. Historicamente, o Brasil buscou projetar-se como interlocutor em crises internacionais, inclusive no Oriente Médio. Em 2010, durante o segundo mandato de Lula, Brasil e Turquia chegaram a negociar com o Irã a chamada Declaração de Teerã, uma tentativa de acordo sobre o programa nuclear iraniano, que acabou sendo rejeitada pelas potências ocidentais.

Desta vez, porém, a percepção expressa por Marandi é de que o Brasil teria pouco poder efetivo diante de uma guerra que envolveria diretamente os Estados Unidos, Israel e o Irã, além de rotas marítimas estratégicas para a economia mundial. A crítica também reflete uma visão mais ampla da linha-dura iraniana sobre a ordem internacional: países que não conseguem confrontar militarmente Washington são vistos como atores secundários.

As declarações podem gerar desconforto em Brasília, especialmente porque o governo brasileiro tem mantido um discurso crítico à política externa dos Estados Unidos em diferentes temas e costuma defender soluções negociadas para conflitos internacionais. Ainda assim, o Brasil não possui presença militar relevante no Oriente Médio nem capacidade direta de influenciar os desdobramentos no Golfo Pérsico.

Para analistas, a fala de Marandi deve ser lida menos como uma avaliação diplomática formal do governo iraniano e mais como um recado político de um setor próximo à ala mais radical do regime. Ao classificar o Brasil como “fraco”, o professor reforça a narrativa iraniana de que apenas países dispostos a confrontar diretamente os Estados Unidos teriam peso efetivo na atual crise.

O episódio também ilustra os limites da ambição brasileira de atuar como mediador global. Embora o Brasil tenha capital diplomático, tradição de negociação multilateral e canais abertos com diferentes blocos, sua capacidade de influenciar conflitos militares de alta intensidade permanece restrita quando não há convergência entre as grandes potências envolvidas.

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