6 de set. de 2011

DESPEDIDA

Essa é a última de minhas Cartas de Havana. Acabo de voltar ao Brasil com meu marido, depois de ter vivido na ilha por alguns meses. Para quem não sabe, fui à Cuba para que meu marido, que é cubano, pudesse completar seu doutorado na Universidade de Havana.
Quando cheguei éramos noivos, pois eu o conheci no Brasil, onde ele fazia parte de sua pesquisa. Em Havana nos casamos e lá vivi a grande contradição da minha vida: estava no momento mais feliz como pessoa, mas vivendo num lugar onde era impossível realizar qualquer projeto de vida.
Tivemos que ir embora mais cedo que o planejado (nossa idéia era ficar um ano) por dois motivos. Primeiro, o gasto excessivo de dinheiro com os papéis do casamento e documentos do meu marido (todos em dólar), aliados ao fato de eu não poder exercer minha profissão de jornalista no país, fizeram com que nosso orçamento fosse ficando cada vez mais escasso.
Depois percebemos que, quanto mais ele se comprometesse com a universidade e eu com as cartas, que já começavam a ser notadas, mais difícil se faria sua saída. Decidimos sair e foram três meses de muito desgaste, papéis e mais gastos para conseguirmos tudo.
Não me arrependo de ter vivido lá. De Havana levo recordações de lugares queridos, meus amigos sinceros e minha família cubana, que amenizaram a vida difícil em todos os momentos. Morro de saudades, todos os dias.
Também trago no coração a esperança de que um dia, a exemplo de tantos outros países nessa recente história, as coisas em Havana e em toda Cuba possam mudar.
Não mudanças de fachada, como as que anuncia o novo governante, que nada mais é que irmão e continuísta do antigo. Mas sim mudanças que possam fazer com que esse povo, tão parecido com o brasileiro, possa ter direitos e deveres como todo cidadão, não apenas obrigações e penas.
Sei que não foi fácil para meu marido tomar essa decisão e o admiro por isso. Nunca foi o que ele quis. Mas sei também que, como cada cubano que saiu do seu país, ele continuará lutando e se expressando (pois agora tem liberdade de expressão) para que sua pátria um dia possa viver uma democracia.
Me despeço de vocês agradecendo todos os comentários aqui e no meu blog. Recebi muito apoio do Brasil e isso foi importante nessa minha estadia em Havana. E termino repetindo o que se diz por aí: vá a Cuba antes que Fidel morra. Vale a pena conhecer essa ilha tão maravilhosa e tão idiossincrática. 
Hasta siempre!
Ana Carolina é jornalista, couchsurfer e autora do blog "Eu moro onde você tira férias"

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