Economia com juros pode significar uma redução de 15% no custo da dívida – e isso traz uma vantagem extra
Juros altos pesam sobre resultados de empresas brasileiras e ampliam risco em ações e papéis de dívida
Por Sérgio Tauhata - Até o Tesouro Nacional decidiu aproveitar a forte queda dos juros de longo prazo após o primeiro turno. O órgão responsável pela gestão da dívida pública viu a oportunidade e não titubeou: realizou o maior leilão de títulos prefixados em seis anos.
Com a melhora das condições após o primeiro turno, o órgão ofereceu na última quinta-feira (8) um total de 42 milhões de papéis, dos quais o mercado absorveu 40,8 milhões. A captação atingiu R$ 33,3 bilhões.
Só para explicar essa oferta elevada: entre segunda-feira (5) e quinta-feira, as taxas do Tesouro IPCA+ e Tesouro Prefixado recuaram drasticamente para os menores patamares desde o início de 2025.
No leilão de 8 de outubro, os títulos refletiram esse movimento. As taxas saíram entre 12,61% a 12,8%, dependendo do vencimento.
Na oferta anterior, em 1º de outubro, os retornos variaram de 13,90% a 14,35% ao ano.
Os juros, portanto, recuaram mais de 1,5 ponto percentual de uma semana para a outra.
Revisão de expectativas fiscais
O resultado do leilão e o tamanho do recuo dão uma dimensão do poder da mera perspectiva de recuperação da credibilidade das contas públicas do ponto de vista de quem investe em tais títulos.
Um alívio nos juros da magnitude projetada por várias casas de análise pode levar a uma redução gigantesca no custo da dívida pública – e privada também.
Várias casas passaram a revisar o ciclo de queda de juros e apontam para a possibilidade de o Banco Central ter espaço para cortar a Selic para até 9,50% ao ano no fim do ciclo, previsto para meados de 2028. Isso, claro, se houver realmente ações críveis de contenção de gastos públicos no longo prazo.
O Bradesco BBI projeta a Selic em 11% ao ano já no fim de 2027. Já o Morgan Stanley enxerga, no melhor cenário possível de resgate de credibilidade fiscal, a possibilidade de a taxa básica terminar o próximo ano em 9,75%.
O otimismo está ligado em parte à proposta ainda informal de Flávio Bolsonaro de começar um eventual governo com um corte de despesas equivalente a 1,5% do PIB. Mas as previsões em si não estão diretamente ligadas ao nome de quem sair vencedor das eleições. Elas mostram o que poderia acontecer num cenário de compromisso com o reequilíbrio das contas da União.
Economia de centenas de bilhões
E de quanto pode ser o alívio aos cofres públicos com juros mais baixos?
O relatório do Tesouro Nacional de agosto mostra que o estoque de LFTs, títulos conhecidos também como Tesouro Selic, representa 52,69% da dívida pública federal.
Como são títulos indexados à Selic, cada 1 ponto percentual de queda da taxa básica mantida por 12 meses representa uma redução na dívida bruta de R$ 65,8 bilhões, segundo cálculos do Banco Central no relatório de estatísticas fiscal de agosto, divulgado no fim de setembro.
Mas, como o Banco Central prefere fazer cortes sistemáticos e a passos comedidos, uma redução de 1 ponto seria algo bem gradual. No ritmo atual do ciclo de cortes, de 0,25 ponto por reunião, seriam necessários quatro encontros – que acontecem a cada 45 dias – para chegar a esse patamar.
Segundo o calendário do Copom, que é o colegiado que decide os rumos da Selic, há mais duas reuniões neste ano, em novembro e dezembro. Então a taxa só cairia dos atuais 13,75% ao ano para 12,75% em março de 2027.
No ritmo de 0,25 ponto por decisão, a Selic poderia terminar o ano que vem em 11,25%. Se o BC não acelerar o passo, a taxa só chegaria a um dígito em setembro de 2028.
Essa economia com a redução de 1 ponto da Selic equivale a 0,44% do PIB, mas esse patamar só seria alcançado em março de 2027. Se a taxa básica terminar 2027 em 11,25% anuais, ocorreria uma redução de 2,5 pontos percentuais.
Nesse caso, a conta da economia vai subindo, gradativamente, ao longo do próximo ano até atingir R$ 163 bilhões após o corte de juros de dezembro. Ou seja: 1,1% do PIB projetado para 2027, segundo o projeto de lei orçamentária, o PLOA 2027.
O gasto atual do governo com os juros da dívida está em patamar equivalente a 7,7% do PIB. O gasto com a dívida baixaria, portanto, para perto de 6,6% do PIB.
É preciso fazer uma ressalva nesse caso. A economia, na verdade, não é necessariamente de caixa, ou seja, o que o Tesouro deixa de pagar no período. Isso porque o desembolso efetivo só acontece quando os títulos vencem ou pagam cupom.
A dívida pública exibe ainda um outro lado, o dos títulos como Tesouro IPCA+ (NTN-B), que é parcialmente prefixado, e Tesouro Prefixado (LTN).
Nesse caso, a economia ocorre nos momentos de refinanciamentos, porque o estoque já foi emitido com taxas antigas.
Segundo o relatório do Tesouro de agosto, em 12 meses vencem R$ 739 bilhões em NTN-Bs e prefixados.
Se houver uma queda de 1,5 ponto percentual no custo dessas dívidas na troca dos títulos antigos pelos novos, considerando que custo médio atual desse estoque está em 12,59% ao ano, a redução pode levar a uma economia bruta total de R$ 11 bilhões se a nova taxa perdurar por 12 meses.
Mas é preciso ainda considerar que essa redução de custo segue um padrão muito gradual. Os leilões de NTN-Bs e papéis prefixados se alternam e são feitos semanalmente.
O volume da captação feita em 8 de outubro, por exemplo, mesmo sendo histórico representa apenas 4,5% do montante a vencer até o fim de 2027.
A economia estimada com uma queda de 1,5 ponto representa 0,075% do PIB projetado para 2027.
Se considerarmos a média do juro real dos papéis atrelados à inflação nos últimos 16 anos (5,6%), haveria um espaço para uma queda adicional de cerca de 1 ponto percentual a partir das taxas de agora – mesmo após a queda firme desta semana.
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Nesse cenário, o custo financeiro poderia cair em cerca de R$ 8 bilhões nominais. Ou 0,054% do PIB estimado.
A economia de R$ 180 bilhões
No conjunto da obra, entre economia com títulos pós-fixados, atrelados à inflação e prefixados, já dá uma economia de 1,2% do PIB no fim de 2027. Nominalmente seriam até R$ 180 bilhões.
Isso significa que o desembolso atual de 7,7% do PIB poderia recuar a 6,5% – patamar já mais perto de 2022.
A economia com juros porém só passa a ser efetiva no ano seguinte e se as taxas se mantiverem por 12 meses.
Além disso, esse tipo de redução não entra na conta de superávit ou déficit primários. Mas ajuda de outra forma.
Quanto menor o custo da dívida, menor o superávit primário que o governo precisa fazer para segurar crescimento da dívida.
A despesa com juros entra em outra conta: a do resultado nominal, que é justamente o primário somado ao que o governo paga pelas dívidas menos o que recebe de juros, ou seja, os juros nominais líquidos – é este que come hoje 7,7% do PIB.
Uma queda no custo da dívida reduz o déficit nominal. Aqui vale um adendo: o Brasil nunca conseguiu produzir um superávit nominal em um ano fechado desde o início da série histórica apurada pelo BC.
Para isso, o superávit primário – a diferença positiva entre as receitas e as despesas não financeiras do governo – teria de ser grande o bastante para mais do que cobrir a conta de juros.
E isso é impossível: seria necessário um superávit de quase 8% do PIB. Não existe. É como esperar que um Uno Miller faça de zero a 100 em 2 segundos. Não vai fazer.
Mesmo os superávits primários não têm sido entregues pelo Estado brasileiro. O último foi em 2022 (1,25% do PIB). Mas, para o mercado, basta sinalizar que existe uma política concreta para fazer superávits ano após ano. Seria o bastante para criar o cenário que você viu aqui.

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