19 de out. de 2026

Trocano: o que se sabe sobre a ‘mãe de todas as bombas’ brasileira

O Instituto de Aeronáutica e Espaço desenvolveu entre 2004 e 2011 uma grande bomba lançada do C-130, pensada para abrir clareiras na mata fechada. Certificada e depois encerrada, a arma virou lenda na internet, com números que nenhuma fonte oficial confirma


Alexandre Galante  - Poucos projetos de armamento brasileiros despertam tanta curiosidade quanto a Trocano. Na internet, ela aparece como a “MOAB brasileira”, uma referência à GBU-43/B americana, conhecida como “mãe de todas as bombas”, e às vezes como a “terceira maior bomba termobárica do mundo”. Os documentos oficiais contam uma história mais modesta, mas real: a de uma grande bomba lançada de avião de transporte, desenvolvida durante sete anos pela Força Aérea Brasileira, certificada e, em seguida, encerrada.


Uma bomba para abrir clareiras

O projeto começou em 2004, a pedido do Estado-Maior da Aeronáutica (EMAER) e da Diretoria de Material Aeronáutico e Bélico (DIRMAB), no Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), em São José dos Campos. Segundo o relatório de atividades do instituto de 2011, a Trocano era um sistema de defesa com duas finalidades: interditar grandes áreas e abrir clareiras que permitissem o pouso de helicópteros em regiões de mata fechada.

O conceito tem precedente conhecido. Na Guerra do Vietnã, os americanos usaram a BLU-82, apelidada de “Daisy Cutter” (algo como “cortadora de margaridas”), lançada de aviões C-130 para abrir zonas de pouso de helicópteros na selva. A Trocano seguia o mesmo princípio. Como a GBU-43/B americana, foi projetada para ser carregada sobre um palete no compartimento de carga do C-130 Hércules e extraída por paraquedas, que a separa do palete; a partir daí, sua própria aerodinâmica determina a trajetória de queda.


Certificação em 2011

A Trocano em testes da FAB


Depois de sete anos de trabalho, a Subdiretoria de Defesa do IAE recebeu do Instituto de Fomento e Coordenação Industrial (IFI) dois certificados para a Trocano: o Certificado de Produto Aeronáutico Aprovado, que atesta o cumprimento de todos os requisitos, e o Certificado de Integração à Aeronave C-130, que autoriza o emprego da arma no cargueiro da FAB.


O projeto também teve efeito institucional. Desenvolvido segundo a norma NBR 15100, de gestão da qualidade no setor aeroespacial, ajudou o IAE a se tornar a primeira organização pública do Brasil a receber a certificação NBR 15100:2004. Segundo o relatório, a produção em série seria custeada pelo EMAER e repassada à indústria nacional.


Projeto encerrado

A produção em série, porém, nunca foi anunciada. Em 2017, em resposta a um pedido feito pelo Poder Aéreo ao sistema de ouvidoria do governo federal, o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) confirmou ter desenvolvido um armamento chamado Trocano, uma bomba lançada de aeronave. Segundo o órgão, a arma teria como característica produzir um grande efeito de sopro, indicado contra construções de alvenaria e concreto convencionais. O DCTA informou também que o projeto foi encerrado em 2011.

A resposta deixou uma dúvida em aberto: o projeto foi encerrado porque fracassou ou porque chegou ao produto final? A coincidência entre o ano da certificação e o do encerramento sugere a segunda hipótese, mas a FAB nunca esclareceu se algum exemplar foi produzido ou incorporado ao inventário.

Em 2025, questionada pela Revista Sociedade Militar, a Força Aérea confirmou a existência do projeto, mas informou que os dados são de acesso restrito e o classificou como um projeto de pesquisa e de desenvolvimento tecnológico e científico, que foi ensaiado e avaliado.


O mito dos números

A falta de informações oficiais abriu espaço para afirmações sem comprovação. Sites e vídeos repetem que a Trocano teria 9 toneladas de explosivo, que seria mais potente que a MOAB americana e a terceira maior bomba termobárica do mundo, atrás apenas da russa FOAB. Nenhum desses números aparece no relatório do IAE nem na resposta do DCTA.

Até a classificação como arma termobárica é uma suposição. O DCTA descreveu a Trocano apenas como uma bomba de grande efeito de sopro, sem informar o tipo de carga explosiva ou o peso. A própria MOAB americana, usada como comparação, não é termobárica, mas uma bomba convencional de grande porte. A falta de transparência levou parte da imprensa a tratar a Trocano como um projeto “alegado, mas não comprovado”. Os documentos oficiais desmentem essa versão: a bomba existiu, foi desenvolvida, ensaiada e certificada.

O nome também tem uma origem brasileira. Trocano é o grande tambor de madeira usado por povos indígenas da Amazônia para transmitir sinais a longa distância, uma escolha coerente com uma arma pensada para operar na floresta.

A última palavra oficial sobre a Trocano continua sendo a de 2017: o projeto foi encerrado em 2011.

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